domingo, 11 de agosto de 2013

Cortando as garras da jaguatirica (parte II) - Assumindo




[Sempre ajo pela emoção do momento, gosto de ser assim, minhas escritas são todas desencadeadas por uma emoção forte, sejam elas simples ou complexas, emoções inventadas por mim ou por outros. Um simples cair de colher no chão pode desencadear um profundo questionamento interior, sinto, me fazem sentir, vivo dessas profundezas da alma, me alimento delas e vomito tudo em forma de arte, aquela que eu chamo de minha.]

Mais um dia se foi, e com ele uma garota se foi também, uma menina insegura, envergonhada de si, medrosa, que não se assumia (apesar de sempre dizer o contrário!). Assumir, eis a palavra que me faltava, difícil ser sem assumir-se de fato, saber onde quero chegar e enfrentar as consequências, saber que não estou sozinha, e que também estou sozinha para muitas outras coisas. De forma sábia, doída, e dramática (como não poderia deixar de ser) a menina desprendeu-se da vergonha de chorar, e incrivelmente não parou até agora, pois é necessário deixar escoar toda a mágoa do mundo e pelo mundo. Choro não apenas pela tristeza, mas pela libertação, limpeza, força, felicidade, o tamanho da felicidade é tão grande que chega a doer, já passaram por isso? Estar em estado de graça, feliz, mas tão feliz, por saber que estou indo para onde quero, libertando não só a mim, mas aos outros na minha volta, percebendo um canal que sempre existiu, mas que nunca tinha sido acessado de forma saudável. Dessa vez me senti segura, já tenho minhas rédeas nas mãos, sei meu norte, apenas precisava ter a mesma experiência da minha última conversa novamente, foi com a mesma pessoa, o mesmo assunto, porém dessa vez fomos muito mais longe, mais profundos, eu e ele estávamos muito mais firmes, enxergando um ao outro, e ouvindo a experiência alheia para acrescentar.

Na noite foi necessária aquela aproximação que ninguém explica, mas existe, algo aconteceu que até agora ao entrar no quarto sinto aquela sensação, e choro. Depois de longas conversas, de ouvir e não piscar ao imaginar cada imagem do que o ser me dizia, eu vi e senti tudo como se estivesse ali, sendo ele. Somos tão parecidos e tão diferentes, vivemos em momentos diferentes a mesma coisa, numa união quase que improvável, nem eu nem ele entendemos o real motivo para tanto, mas decidimos em um pacto silencioso de amizade/amor nunca deixarmos ninguém acessar aquele ponto que nós achamos, um cantinho no alto da montanha, escondido de tudo e todos, ali onde vamos procurar apoio quando o resto do nosso mundo estiver caindo.

"Deixe o chão desmontar-se sobre seus pés...e voe".

Me senti de todas as maneiras, e foi muito difícil receber exatamente na mesma moeda o que eu sempre dei, dói ouvir a verdade, dói saber que te quero mas não posso ter, dói saber que eu quero ser tua, mas não posso ser, precisamos primeiramente ser de muitos outros(as), precisamos sermos de nós mesmos, pois ainda nem nos temos, ter um ao outro como, se ainda não somos completos sozinhos?
É difícil nós que vivemos em uma sociedade cheia de vícios, convencional e machista, falarmos sobre liberdade, verdade e sinceridade. É muito fácil cairmos em armadilhas que nos seguram por anos, viver na inércia, acomodados pelas facilidades mundanas. Sentir ciúme, possessividade, querer só para nós o que não é nosso, me peguei tendo de lidar com tudo isso, e foi tão difícil sair dessa máquina que me consumia, foi tão difícil dizer a mim mesma para soltar minha alma para que ela pudesse ser livre como eu sempre desejei. Tive de sentir isso por um homem para que eu visse que isso na verdade era reflexo da forma que eu tratava a mim mesma. Eu me aprisionava e aprisionava os meus. É aí que nós entramos na vida um do outro, para quebrarmos esse ciclo vicioso e doentio, para nos reinventarmos a partir do "chacoalhaço" que tivemos de dar na vida do outro.
A verdade, sinceridade, elas cortam, e como num parto machucam mas aliviam, pari um filho, um novo sentimento. Como se eu estivesse casando comigo mesma numa cerimônia incrível, me "fechando" para abrir somente quando eu quiser, para quem eu julgar merecedor das minhas verdades.
Vazio, ele apareceu depois da noite de percepções de cores púrpuras, acordei de manhã tendo de deixar ele ir, me deu medo de perdê-lo, me deu um medo maior ainda de me perder por ai, -tem tantos caminhos agora, e se eu quiser escolher todos, eu posso!- Ainda assim vi que era obrigatório deixar ir ser livre, para que eu também pudesse ser. Pensei no início tratar-se do vazio de não o ter, horas mais tarde notei que o vazio era meu, de mim mesma, onde eu estava todo esse tempo?
Em seguida, depois de perceber o real motivo do vazio interno, fui preenchida quase que imediatamente por uma leveza harmônica, e senti que não me perderia, pois eu tenho meu foco claro, e não, eu também não o perderia pois eu sei, ele sabe e ponto. 
Tendo de voar alto, com uma vontade louca de me jogar, correr, gritar, quebrar tudo que eu tinha, minha regras, todas caindo por terra, acordei com sede de tudo, sem a percepção da dor, já que eu estava amortecida de tanto carinhos e socos no estômago. Nesse dia de hoje não tive oscilações como costumo ter, me mantive com os olhos lacrimejantes e com o soluçar do choro na voz, percebendo cada vibração, cada ser que me olhava, passava perto, eu sabia quem era, como era e para o que era.
Evitei o dia todo estar no mesmo ambiente da conversa, não arrumei a cama, com a intenção de reviver tudo aquilo mais tarde, acessar o que eu ainda não tinha tido coragem de ver, e precisaria ver sozinha.
 Saí de casa e procurei pelos meus, longas conversas esclarecedoras com a família, definindo o que já estava definido, apenas relembrando para o que eu tinha vindo. Todos, cada um a sua maneira aceitaram minha condição, muitas famílias comuns não entenderiam, e nessas horas me sinto abençoada por saber que tenho minha base familiar tão forte e unida. Na minha loucura, descobri que tenho que sair de perto de todos que eu posso usar de "muleta", preciso ser a equilibrista na corda bamba, sem nada além dos braços para me manter equilibrada. É difícil na nossa sociedade hipócrita assumir que temos momentos em que temos que ir atrás do que é certo para nós, e manter distância do que pode ser um vício é fundamental, portanto vejo agora com mais clareza, preciso ir para longe para poder estar perto.
Saber que não estou sozinha, nesse sentimento de estar-afim-de-quebrar-as-regras-do-convencionalismo me deixa aliviada, fico tão feliz ao conhecer gente que sente como eu. Esses eu quero perto, quero que façam tão parte de mim e da minha vida quanto eu da deles, quero dar tudo sem pedir em troca. 



Sinta-se a vontade para ser você ao meu lado, venha quando quiser, some, suma, me ame, ame ele, ame ela, construa, destrua, recomece, renasça, volte, chore, ria, me agrida, me toque, esteja entre minhas pernas, esteja entre as pernas dele, esteja entre as pernas dela, olhe, abuse da verdade, se entregue ao que é ou não é, não importa , te dou tudo que é teu por merecimento, sou tua como nunca serei de mais ninguém. 
Amando? Sim, absolutamente embebida nesse sentimento.