domingo, 6 de outubro de 2013

Instintos

"Instintivamente me desconstruo para ser quem realmente sou por inteiro."
Fotografia de Olivier Valsecchi


Leve, suave, absorvendo, fazendo parte de uma fase de vida que ainda não sei nomear. Cada dia sinto mais necessidade de me aproximar de tudo que me faça bem, só me permito sentir, puramente.
Por instinto me afasto do que possa me fazer mal, mesmo quando para todos pareça algo inofensivo, sei ver além do que está na superfície, aprendi isso da pior forma, levando muito por acreditar no que me diziam, agora acredito no que eu vejo e sinto a respeito do algo “bom”. Por mais que pareçam agressivas minhas atitudes, mais uma vez aviso, estou agindo por instinto, sumo se julgar necessário, protejo os meus objetivos com uma agressividade quase animal, me fecho para alguns, me ergo e aponto meus olhos nos olhos de quem tenho respeito, sem medos, já passei por muitas coisas desagradáveis por sentir medo de ser quem eu sou, não quero mais isso, não preciso disso.

Briguei, perdi amigos, ganhei inimigos, vivo cercada por uma linha tênue de pureza e escuridão. Pessoas se admiram, pessoas se intrigam, pessoas não se entendem, respeitam ou não umas as outras, as vezes sentem algo sobre os outros que nem elas próprias sabem definir o que é,  se é bom ou ruim, sobra para pessoas que enxergam nitidamente os sentimentos decidir, para apenas se defender do que pode ser nocivo a sua saúde e vida. Não importa onde eu olhe, existe uma paisagem poética, um lindo jardim com muitas flores, que guarda atrás uma grande floresta, repleta de árvores imensas, mato fechado, que não quer ser tocado, apenas apreciado.
Tenho sentido meu limite para me curvar a adaptações, sou diferente, e gosto de ser assim, me sinto uma E.T nessa terra de ninguém que é nosso planeta, então a quem eu quero enganar? Sigo minha maré, não sigo boiada, quem me conhece entende e aceita, caso contrário, a porta de saída esta aberta. Tenho uma família e amigos que são assim, sei que existem muitos sentindo dessa maneira nesse mundo gigante, só preciso me encontrar cada dia mais comigo mesma para acha-los.
Ontem, estava ainda sentindo uma incomodação por não me aceitar, não é fácil bater de frente contra toda uma realidade já existente e bem fixa no mundo atual. Pensei, organizei os sentidos e resolvi deixar fluir isso que ferve em mim, dedico minha arte a essa nova mudança, se eu for contra minha natureza meu trabalho todo vai por água abaixo. Trabalho no repertório como se fosse minha vida para ser dita em um show, exagerado? Claro! Como tudo em mim.

Cada ser tem sua vida diferente do outro, o que é certo para mim, pode ser o errado seu. Não se surpreenda se eu chutar para longe a “oportunidade da minha vida”, sei bem onde quero chegar, e sei bem escolher minhas oportunidades sem ser oportunista. O universo conspira quando estamos na frequência certa, sinto a vibração dentro quando me conecto com meu ser mais íntimo, felicidade leve, um sentimento de paz preenche, nada pode dar errado quando sinto assim...estou no caminho certo.
Estou em casa, escrevendo, tomando chimarrão, na janela minha gata sentada me olha fixamente, meu cachorro brinca com o outro com leves mordidas, deitam e rolam sem barulhos, o filho brinca no pátio enquanto a outra gata esta deitada admirando de longe a brincadeira agitada, com uma vontade grande de voar em cima dos brinquedos. Eu dentro do meu laboratório de ideias entre uma música no teclado e outra escrita, escuto músicas o tempo todo no meus ouvidos, e medito sobre os passos a seguir, tudo esta sendo digerido aqui dentro, esse é meu cenário perfeito, dentro dessa salinha de trabalho existe a grande floresta negra enquanto no jardim a frente as flores vivem a colorir.

Meus leves passos são densos e deixam pegadas pesadas por onde passo, nada importa mais, esse ano está acabando, penso sobre o que foi com muito aprendizado, só tenho a ganhar nos anos que vem. Planos, família aumentando, casa florescendo, harmonizando trabalho e sentido de viver, tudo indo como deve ser.
Pessoas vem e vão, poucas ficam, essas eu abraço como se fossem meus entes queridos. Amo tanta gente, filho, irmãos, mãe, madrasta (ou boadrasta, hehe), pai, amigos, amantes, conhecidos que deixaram marcas, todos foram de grande importância até aqui, mesmo os que me machucaram. Cada um tem seu motivo para aparecer em nossas vidas, e as vezes é necessário ir até o outro lado do mundo para encontrarmos essas pessoas, e isso realmente aconteceu comigo, pessoas que mudaram meu jeito de ver o Brasil lá no Japão, pessoas especiais, daquelas que eu nunca quero esquecer. Obrigada.

Tudo que é feito com alma tem vida própria, como se ali eu deixasse um pouquinho de mim, e dentro de quem consome minha arte ali estou, quieta ou inquieta, pulsando, movimentando algo que nem eu sei o que é, planto sementes em mentes questionadoras como a minha. Faço perguntas que vão além do “porque isso acontece comigo?”, quero saber muito mais do que acontece comigo, quero passar adiante o que sei e aprender mais sobre o que existe dentro e fora.


Sigo. Boa sorte para nós.